O ano era 1997, meados de junho. Ele caminhava pela avenida. Tantas pessoas, apesar da neblina intermitente. Na hora do rush, nunca é fácil avançar pelas calçadas do centro. Mas Jorge não tinha dúvidas. Caminhava sem pressa, sem medo, sem nada além de um ódio tão bem concentrado que o deixava insensível aos elementos externos. Ali só valia a impressão deixada pelo pesadelo há algumas horas sonhado; um sonho feio, mas com jeito de premonição.
Meteu a mão sob a surrada jaqueta de couro e fechou os dedos em torno do cabo da arma. Sorriu, agora um pouco excitado, como se estivesse tocando o próprio membro, nas carícias preliminares de um ato sexual. Mas ele sabia que, da próxima vez que tocasse ali, não seria para nenhum tipo de carícia; e o que viria logo a seguir não teria nada a ver com sexo.
Havia acordado no meio da tarde, provavelmente gemendo. Era sempre assim, quando sonhava. A mulher estava costurando em um canto da sala, cabisbaixa e tristonha, como era de praxe ultimamente. Costurava o dia inteiro e era dali que vinha o sustento da casa, porque ele estava desempregado há um tempão. Aos poucos, vinha desistindo de sair diariamente para procurar emprego; logo, logo, descobriu que ficar em casa podia ser pior do que voltar de mãos abanando. As crianças certamente estavam vadiando pelas ruas: não pudera mais sustentá-las em escolas particulares e não mais havia vagas nas escolas públicas.
Tinha sonhado que era criança outra vez e estava em um lugar tenebroso, mas que lhe era familiar. Como sempre acontece nos sonhos, aquele ambiente variava, ora sendo as margens do rio da sua cidadezinha natal, ora sendo as proximidades do rio Capibaribe em pleno coração do Recife. Havia outras pessoas andando por lá: alguns eram velhos conhecidos seus; outros, pessoas que ele nunca tinha visto antes. Aqueles que conhecia eram todos parentes ou amigos seus já falecidos, mas que estavam ali vivos e estranhamente à vontade. Todos, sem exceção, olhavam para ele e o cumprimentavam, como que lhe dando boas vindas.
Contudo, havia mais alguém ou alguma coisa naquele lugar, que merecia tanta atenção quanto ele; porque as pessoas olhavam alternadamente para o Jorge menino... e para o outro lado. Moviam as cabeças lentamente, como se acompanhassem uma partida de tênis em câmera lenta... sendo que, do outro lado, estava o seu oponente.
Era um monstro enorme, que não tinha braços nem pernas... um réptil gigantesco... uma cobra sucuri.
II
Jorge havia nascido e passado toda a infância em uma região pantanosa do Mato Grosso, num pequeno vilarejo de nome Santa Helena. Lá, viveu uma experiência que ficou como que marcada a ferro nas suas lembranças: voltava da escola com outros garotos, quando viu um ajuntamento de pessoas na margem do rio. Todos olhavam para uma enorme sucuri, que havia sido morta a pauladas pelos pescadores enquanto dormia. De comprimento, media cerca de dez metros. Era das maiores que já se tinha visto por lá.
Entretanto, o que mais impressionava era aquele engrossamento dela, entre a cabeça e a cauda. Era um novilho, disseram as pessoas, que a sucuri tinha devorado.
Jorge lembrava que passou dias apavorado. Se um bicho daqueles podia matar e comer um novilho, quase um boi, podia muito mais facilmente comer um menino do tamanho dele. Veio a saber depois que alguns daqueles pescadores abriram a cobra... e aproveitaram parte da carne do novilho devorado.
Mas o animal do pesadelo não estava nem um pouco sossegado, dormindo ou indolentemente mergulhado naquela prolongada digestão, como deveria ser. Não! Aquela sucuri se contorcia horrivelmente, os olhos esbugalhados e terrivelmente humanos. A boca se escancarava em uma forma de esgar que não tinha nada de escárnio. Os sons que saíam daquela boca eram também humanos e agoniados. Sim, porque a sucuri agonizava, engasgada com o próprio alimento que insistia em voltar, numa espécie de digestão às avessas. Como para confirmar aquele raciocínio alucinado, dois tentáculos saíram do meio da cobra e se dirigiram para o que seria a garganta. Mas já não eram exatamente tentáculos. Eram dois braços humanos, cujas mãos peludas se cravaram na garganta inchada, em uma tentativa final, desesperada e inútil.
No meio da confusão dantesca que era o pesadelo, Jorge via e antevia muita coisa; parecia ter um completo, inexplicável domínio da situação. E, pasmem, ele não queria sair do pesadelo. Não desejava acordar, como se aquilo fosse o mais singelo e agradável dos sonhos. Deveria estar com medo porque, no sonho, ele era pequeno e indefeso, em alguma fase qualquer da sua infância perdida. Medo porque, desde quando se lembrava, sempre tivera pavor, repugnância de répteis em geral. E a sucuri era o maior réptil de que tinha conhecimento.
A metamorfose do animal não chegou a se completar antes que Jorge acordasse, mas ele ainda teve tempo de ver a cabeça agora humana... e o rosto familiar.
III
Talvez por conta das recordações resgatadas pelo sonho, lembrou-se também que tinha este nome porque a mãe, ainda mocinha solteira, tinha visto em algum lugar um quadro que retratava a luta de morte entre um belo guerreiro e uma enorme serpente com asas. Quando soube que o guerreiro do quadro era São Jorge, ela decidiu que este seria o nome do seu primeiro filho homem. Até isto, de certa forma, se encaixava com o pesadelo.
Ainda deitado, fez um breve inventário mental de todos os problemas que o afligiam desde o dia em que fora demitido. Não era pouca coisa até ali, e ele tinha certeza de que tudo iria piorar. Feito um náufrago, agarrou-se outra vez à idéia fixa que se instalara em sua mente no exato instante da sua demissão. Aquilo tinha virado uma obsessão que foi crescendo e crescendo, até parar de crescer no fim desta tarde, quando atingiu o tamanho definitivo. Jorge então já estava bem desperto.
Levantou-se tranqüilamente decidido, tomou um banho, vestiu roupas limpas e uma jaqueta de couro. Só precisou de alguns telefonemas para saber aonde iria logo mais. Saiu para a rua.
E aqui estava ele agora, já dobrando a esquina da Conde da Boa Vista com a Rua da Aurora; a velha esquina do Cine São Luiz, às margens do Capibaribe. A neblina engrossou, virou chuva. Ele postou-se sob a marquise do cinema, abrigado da enxurrada. A última sessão terminaria logo mais, dali a alguns minutos. Ficou olhando os cartazes dos filmes e até se deixou absorver um pouco por eles. Do outro lado da marquise estava um pipoqueiro, uma menina vendendo balas, um policial militar.
Continuou absorto mesmo quando percebeu que a sessão havia terminado, as primeiras pessoas já buscando a saída do cinema. Mas só aparentemente absorto. Agora, estava alerta, atento àqueles que saíam e que não eram poucos. Quase todos vinham ainda meio risonhos, pois o filme era uma comédia. Entre eles, havia mais dois PMs.
Uns três minutos depois viu a cara redonda e sorridente do seu ex-chefe de repartição, acompanhado da esposa. Ali estava o burocrata gordo que lhe destruíra a vida, que lhe tirara o emprego com a mesma facilidade com que aparava as unhas. Aquele era o responsável pelo futuro tenebroso da mulher e dos filhos de Jorge. Enxugamento. Era como eles chamavam aquelas demissões em massa.
Viu o sorriso do outro se desfazer devagarinho, na medida em que o dele próprio se delineava e na medida em que sacava o revólver. Quando apontou a arma, a boca do outro estava aberta e redonda feito um O. Mas o alvo não era a boca, porque seria rápido demais, Jorge o sabia. O alvo era aquele pescoço balofo, e ele pressionou o gatilho. Foram dois tiros bem sequenciados, como se o atirador fosse um perito.
Seguiu-se uma confusão dos diabos, com as pessoas fazendo algazarra, correndo para todos os lados, enquanto o homem gordo levava as mãos ao pescoço e caía. Um dos PMs escondeu-se atrás da coluna. Os outros dois correram e se agacharam por trás de um dos táxis estacionados. Gritaram ordens, primeiro uns para os outros, depois para o homem que havia atirado. Já tinham sacado suas próprias armas. Certamente, queriam que Jorge largasse o revólver, se rendesse. Mas ele só tinha olhos e ouvidos para o gordo que se contorcia e gemia no chão, as mãos no pescoço empapadas de sangue, os pés chapinhando na água.
Os policiais dispararam. As línguas de fogo, as explosões e a nova gritaria foram, para Jorge, a mesma coisa. Os impactos eram como se muitas pessoas o empurrassem contra a parede, todas a um só tempo. Sua cabeça bateu, estilhaçou o vidro dos cartazes. Ele deslizou suavemente pela parede e para o chão, onde terminou sentado com as pernas estranhamente esticadas, feito um marionete largado em um canto.
Um pensamento que era uma certeza aflorou-lhe à mente turva: o outro morreria depois dele, e morreria sem poder respirar, as unhas encravadas na garganta, os olhos esbugalhados. Era isto que dizia o pesadelo e era assim que seria, pouco importando o que as pessoas depois fizessem para socorrê-lo. Enquanto ele próprio morria, veio-lhe uma forte sensação de deja vu. Como se já tivesse passado por tudo aquilo antes, como se tivesse morrido outras vezes.
O sangue dos dois homens se misturava, corria junto pela calçada, era diluído e levado pela água da chuva. Rumo ao velho Capibaribe, onde todas as águas são iguais.
Recife, agosto de 1997.
Francisco Cleóbulo Teixeira
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