Eram oito horas da manhã e o sol estava a pino. A avenida, uma das mais movimentadas da orla, já estava completamente engarrafada em todas as pistas e nos dois sentidos. Três PMs se esforçavam para reatar o fluxo do trânsito, mas o barulho ensurdecedor das buzinas e dos motoristas irritados só acentuava mais ainda o caos.
Havia muita gente circulando em torno do cadáver. Pessoas que saíam das lojas, das lanchonetes, dos pontos de ônibus; estudantes, de algumas escolas próximas, e uns poucos banhistas. Todos olhavam o corpo mal coberto com um lençol providenciado pelo hotel. Alguns faziam perguntas, outros teciam comentários enquanto os policiais permaneciam impassíveis, mantendo o cordão de isolamento e aguardando a chegada do pessoal do I.M.L.. O gerente do hotel conversava com um oficial da PM, gesticulando muito e demonstrando aflição. Provavelmente tentava convencer o policial a retirar logo o corpo dali, para reduzir a publicidade negativa que fatalmente recairia sobre o seu estabelecimento. O oficial mostrava-se irredutível, mal respondendo através de monossílabos e meneando a cabeça negativamente. Neste momento, um repórter com um microfone e acompanhado de perto por um fotógrafo abria caminho na direção deles. O gerente retirou-se com um ar de desalento.
Pelo que pude apurar, ela havia se jogado do 10o. andar, dois andares acima do meu. Não se sabia precisar a hora exata do ocorrido, mas calcula-se que foi entre cinco e seis da manhã, pois o guarda noturno afirmou que, nesse intervalo de tempo, ele ouviu um barulho semelhante a um baque surdo. Poucos minutos depois, encontrou, ou melhor, quase tropeçou no corpo estendido grotescamente na calçada.
Não posso dizer que a conhecia. Devo tê-la visto umas três ou quatro vezes no saguão e no elevador. Se nos cumprimentamos alguma vez, foi aquele cumprimento de pessoas que só têm em comum o fato de estarem hospedadas no mesmo hotel, o que nada significa.
Olhei mais uma vez disfarçadamente para alguns rostos da multidão. Eu sabia que havia alguém ali satisfeito com aquela cena; alguém que havia pago um alto preço em dinheiro vivo para que a tragédia ocorresse. Quem seria? A curiosidade dele ou dela (havia sempre disfarçado bem demais a voz pelo telefone) deveria ser bem maior que a minha. Mas esta pessoa jamais me descobriria. Eu poderia descobri-la. Se quisesse. Só que não quero saber, nem dele (ou dela) nem de seus motivos. A única coisa que eu queria de tal pessoa era o pagamento, e este já estava comigo.
Quanto à moça morta, cuidei para que não sofresse. Fui rápido quando a contundi, ela praticamente não percebeu nada, e estava completamente desfalecida quando a joguei pela janela.
Francisco Cleóbulo Teixeira
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